SANDÁLIAS DO PIRATA

02/09/2011

NOVA CLASSE MÉDIA VAI A RESTAURANTE CHIQUE!

Filed under: POLITICA — julio pegna @ 10:14 PM

O autor é desconhecido mas, certamente, baiano. O retrato bem humorado do novo Brasil.

Recebi o texto de meu amigo Roberto Lima, a quem agradeço.

Divirtam-se!

***

Rapaz. Que frescura é essa história de restaurante chique, viu?

Eu jurava que nunca iria gastar meus suados reais num restaurante cheio de frescuras. Um lugar onde você pede um prato e vem um pedacinho de carne do tamanho e da espessura de meia folha de papel de ofício, dobrada ao meio acompanhada de uma migalha de arroz com um molhinho e uma folha de louro e que custam os olhos da cara e o de baixo também. E onde todos tiram uma onda retada.

Mas eis que Deus, sem ter nada melhor pra fazer, olhou pra mim e disse:´”-Tú vai sim, sacana” e num belo dia, após ligar para a Rádio Metrópole de seu Mário Quértiz, ganhei uma cortesia de 50 badarós para gastar num desses restaurantes, no caso específico, aquele que fica no Rio Vermelho. O que tem o nome daquele pintor espanhol, xará de nossa cidade. Não é o daqui. É o Dali.

E lá fui eu devidamente acompanhado para o restaurante burguês e pensando: “Hoje vou tirar onda, minha porra!!!”

Botei aquela roupa comprada em 7 vezes na Riachuelo que eu só uso em ocasiões especiais e me piquei pra lá.

Chegando no local, fui recebido por um negão do tamanho da zorra na porta. Pensei: “Esse filadaputa vai me barrar” Que nada. O cara veio com um “Boa noite senhor” Senhor, sacana… Me senti até gente. Lá no Cai Duro, a maior reverência que recebo é quando o garçom me chama de “brother”. O negão era manobrista, só que não precisava de manobrista já que eu tinha um motorista. Um motorista e um cobrador.

O negão me passou para um outro cara, que perguntou se eu queria ficar no bar ou ir pro lounge? E eu pensando “Que desgraça é lounge?”. Depois é que eu fui ver que era a parte de cima do bar. Porra, que frescura do caralho. Bastava perguntar “Vai ficar no bar ou quer subir?”

Esse outro cara me passou para uma morena que me encaminharia pra minha mesa. Àquela altura eu já estava ficando cansado daquela paletada. Eu vim comer ou fazer trekking? E o pior é que naquele ritmo, quando eu chegasse à mesa já teria dado meia noite e eu não teria mais buzú pra voltar pra casa.

Fui acomodado na varanda que fica sobre o mar. O mesmo cheiro de maresia da Ribeira. Mas era uma maresia chique da zorra. As algas deveriam ser daquelas criadas nas águas termais dos mares da Grécia, colhidas em Mikonos, importadas de avião e jogadas embaixo da sacada do restaurante daqui.

O restaurante era massa. Velas por todos os lados. Um telão. Uma decoração bala. E um daqueles quadros borrados. Daqueles em que os endinheirados ficam parados na frente, não entendem porra nenhuma da pintura, mas ficam olhando com a mão no queixo, a testa franzida fazendo tipo e dizendo coisas do tipo: “este quadro representa toda a magnitude do ser, expressada pelas linhas assimetricamente delineadas pelo traço introspecto do artista e não sei mais o que… Pra mim era um quadro borrado. Não gostou? Me bata!

Arte abstrata uma banana. Lembrei logo daquele cartaz/ propaganda antigo da Marlboro que fica na parede do pirão do Bar do Pascoal no Santo Antônio. Pode ser sintoma de pobreza mais achei mais legal a foto daquele cowboy que se fudeu de câncer no pulmão, do que esse quadro borrado chique.

Ao fundo tocava uma música internacional. Não entendi nada do que a cantora cantava, mas pelo menos não era arrocha, axé, pagode e nem Ana Carolina. Não agüento mais ouvir “Eu queeero te roubar pra mim”…

Já as pessoas nem respiram. Um ar soturno de museu de cera. Se você olha muito para alguém, essa pessoa já pensa que você quer roubá-la, sei lá. Rico quando conversa, não ri. Parecem estar em coma. E as caras e bocas daquela gente bonita? Vão à merda.

Ao fundo, um bigodudo fumava um charuto do tamanho de um tubo de 50mm da Tigre, daqueles de passar tolete. Dava cada baforada, como se escrevesse no ar com a fumaça “eu tenho uma Land Rover e um C5 Pallas” Eu tenho uma cobertura no Le Parc” “Eu sou o fodão”. E eu pensando: “Esse filadaputa deve estar devendo duas parcelas do leasing do CIVIC. Mais uma e o banco toma.”

Chega o garçom e oferece o couvert. Olhei ao redor, mas não tinha ninguém tocando. Tinha sim um telão enorme. Será que eu teria que pagar pra assistir tv nessa zorra?

O garçom trouxe o tal do couvert. Era comida. Na verdade, era uma cenoura cortada na horizontal, em quatro, com um pão cacetinho torrado cortado em rodelas com duas cumbuquinhas, uma com manteiga e outra com patê. O preço? R$ 7,90. Que porra é essa? No restaurante “O Líder” do Largo Dois de Julho eu bato um sanduichão de pernil de porco e queijo de cuia que tem aquele molho secreto maravilhoso com uma Coca e ainda sobram R$ 1,50. Gentilmente recusei o couvert. “Não estava disposto”. Olhe que agá da porra…

E as bebidas? Cada 8 latinhas lá no chique daria para tomar uma caixa no bar de Oliveira em Plataforma.

Resolvemos pedir o prato. O cardápio tinha um monte de nomes que mais pareciam a escalação da seleção da Thecoslováquia da copa de 86. Pedimos um tal de “Salmão ao molho Nagóia”. Olhando a descrição do prato, era uma posta de salmão com arroz, acompanhada de um molho à base de Inhame e ervilhas. Eu nem sabia que tinha inhame no Japão.

Enquanto esperávamos o prato, mostrei à gata que estava comigo, um coroa que estava acompanhado de uma deliciosa morena que eu acho que vi naquele site www.elitegr…deixapra lá.

Bem. O cara estava numa marra danada tirando uma de enólogo (aquele cara que sabe sobre vinhos (ou finge que sabe) e faz questão de se mostrar na frente de todo mundo como se só ele entendesse da bebida). E eu de cá, explicando à minha gata os movimentos. Porra. Eu também sei sobre vinhos, eu tenho acesso à internet, tem Lan House lá em Plataforma, caralho. Sei algumas coisas sobre vinhos, mas, não fico tirando onda de muita merda. E não tenho besteira. Eu bebo um autêntico “Pinot Noir” da mesma forma que bebo um “Cantina da Serra” com Coca-Cola e gelo, sem problemas.

E o cara seguia cheirando a rolha, olhando o rótulo, colocando a taça contra a vela, abrindo o buquê, sentindo o tanino e o escambau. Aquele não era um bebedor de vinho. Era praticamente um técnico da NASA.

Chega o prato.

Cara, que mizera era aquilo? Um taquinho de salmão do tamanho de um celular N-73 da Nokia, só que mais fino, acompanhado de uma cumbuca de arroz virada de cabeça pra baixo e três ervilhas de cada lado, melecado por um molhinho derramado em forma de “S”. O estômago disse, “Você é viado, porra? Quer me fuder? E eu? Como é que eu fico?”

E ainda por cima, como todo bom pobre neo-classe média, perguntei à minha gata porque o peixe era rosa.

– “É salmão, tabaréu”.

E eu lá tenho obrigação de saber que salmão é rosa? Peixe rosa eu só vi uma vez e era porque estava estragado. Nem pedi farinha pra ela não se retar comigo.

Enquanto eu comia, pensava “Como é que gente rica se sustenta?” Aquilo não dá sustança, como dizia meu avô. Se eu comer meu feijão sem farinha, fico logo com fome depois, imagine aquela merreca? Morreria de inanição em dois dias.

Mas ainda tinha a sobremesa.

Seguindo a indicação de minha amiga Camila Cintra, assídua freqüentadora do local (e dos melhores locais de Salvador e Austrália, diga-se de passagem) e burguesa brother, pedi um tal de “petit gateau” que ela tinha me dito ser de cair os dentes de tão gostoso.

Perguntei ao garçom como era o tal Gato Pequeno (tradução minha) e ele me disse em tom de mistério armado, para valorizar a sobremesa, que “era uma sobremesa que congressava harmonicamente o calor com o frio num misto de encantamento e vigor saboroso das duas sobremesas”.

Cara. Pela descrição, aquilo não era só uma sobremesa, era o conteúdo do cálice sagrado. Do Santo Graal. Bebido pelo próprio Jesus na Santa Ceia.

Fiquei numa expectativa retada e quando chegou a sobremesa, era um bolinho de chocolate quente, nada demais, que vinha acompanhado de uma bola de sorvete de creme. Era gostosinho sim, mas não vi nada de mais.

Sei que minha amiga Camilinha ao ler isso, dirá que eu tenho o paladar prejudicado pela pobreza, isso porque eu disse uma vez que as trufas do Tango Café de Praia do Forte, que ela e metade da Bahia barona achavam deliciosas, eram meia boca, amargas e caras e que eu preferia uma boa caixa de bombons Lacta.

Mas na moral, o sorvete da Cubana do Elevador Lacerda era mais gostoso do que aquele que acompanhava o Petit Gateau.

No final das contas, gastei mais R$ 25,00 além da cortesia e saí num rango da zorra.

A salvação foi me picar pro Mercado do Rio Vermelho ao lado e forrar o estômago com uma deliciosa moqueca de siri-catado regada com algumas gelosas, sentado numa legítima cadeira de prásco.

Volto num restaurante chique? Claro.

Se descolar uma cortesia de novo… 

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